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EM SOL MENOR

EM SOL MENOR

Dia 106

Abril 16, 2021

Adorava passear pelos jardins, mal o sol começava a chegar. Não estava ainda muito quente, aquele calor que cola a roupa ao corpo, e conseguia dar longos passeios arrefecida pelo vento. Parado, o ar era quente, mas a mínima brisa funcionava como refresco. As folhas das árvores ficavam mais verdes do que no verão, quando já estavam cozidas pelo sol abrasador durante dias a fio. Não precisava do calendário para recordar a vinda da Primavera, os primeiros espirros a lembrarem-na de ir abastecer-se de anti-histamínicos. Às vezes esquecia-se de os tomar e só se recordava quando estava já demasiado distante para voltar atrás: aguentava as alergias, e seguia o percurso. Mesmo nesses dias, admirava as flores, aquele estado da evolução da planta que em breve desapareceria, tão fugaz como todas as coisas que merecem ser vistas. Mesmo com os olhos vermelhos e lacrimejantes, conseguia ver-lhes sempre a beleza.

Dia 105

Abril 15, 2021

Está uma noite lindíssima, e ninguém parece reparar. Sentado na areia, sapatos ao lado com as meias amarrotadas dentro, olho o mar. Mal o vejo: está uma noite lindíssima e só se vê o mar no sítio onde a lua reflete. Sabemos pelo barulho que lá está, vasto e espalhado à minha frente. Ouvem-se revoluções vindas do mar, ouve-se a violência das ondas nas rochas, a rebentação furiosa. Não vejo mais ninguém no areal, mas faz sentido que lá estejam, almas penadas como a minha, num purgatório terra-mar. De resto, está uma noite lindíssima, e se eu reparei, outros também o terão feito. A lua não ilumina tudo, não chega, mas talvez seja melhor assim, cada um na sua ilusão de privacidade, cada um a ver o seu mar - lago de petróleo, a esta luz. O mar fala connosco, se ouvirmos atentamente. Não sei o que diz, mas fala, fala sempre. Penso em ti, e nas tantas vezes que falas sem que eu te ouça. Mas está uma noite lindíssima, e se ficar atento durante tempo suficiente, talvez venha a perceber o que ele me diz, talvez venha a perceber o que me queres dizer tu.

Dia 104

Abril 14, 2021

Espero-te no sofá. Em silêncio, sem televisão nem rádio, dou uso à paciência que fui acumulando ao longo dos anos. Vou dormitando, mas sem que isso me tire do estado de alerta. Por vezes dirijo-me à janela, como se isso te fizesse apressar, como se chegasses mais depressa por eu estar ali. Aproveito para apanhar um pouco de sol, quando ele aparece, e volto para o sofá. Não vejo as horas, o que me pode reduzir um pouco a ansiedade, mas na verdade não sinto que tenha esse efeito em mim. A ansiedade não dá tréguas. À tarde, quando o sol já não bate na janela, começo a ficar atento aos movimentos no prédio. Qualquer barulho nas escadas me faz levantar do sofá, como se tu algum dia fosses capaz de as subir até ao quarto andar. Nunca atendo a campainha, aprendi a fazê-lo com os anos: se fosses tu usarias as chaves. A cada chamada do elevador, e desperto pelo solavanco do elevador adormecido, corro para a porta. É o meu interminável exercício da tarde, mas só uma dessas viagens de elevador te traz até mim.

Dia 103

Abril 13, 2021

Era normal vê-la com os óculos a escorregarem-lhe pelo nariz enquanto se aproximava para ver as letrinhas pequenas. Um cliente normal do supermercado só se fixa no preço, mas ela procurava as letras mais pequenas das promoções e o preço por quantidade, enquanto mentalmente os comparava com os de outras lojas. Antes de haver sites comparadores de preços, já ela o fazia - uma pioneira. Uma coisa era certa: só comprava o mais barato. Por outro lado, a ânsia da promoção levava-a a comprar mais do que aquilo que alguma vez seria capaz de consumir. Mensalmente fazia uma vistoria à despensa, e acabava a deitar fora alguns produtos. Então vinha a culpa. Podia pensar-se que a culpa viria de estragar alimentos que a tantos fariam falta, mas não era isso. A culpa vinha-lhe dos cálculos mentais, de acrescentar os valores pagos pelos produtos estragados - ela sabia os preços todos, nunca se esquecia de uma boa promoção - aos valores originalmente pagos, e perceber que tinha feito maus negócios. Para se vingar dos maus negócios e trazer novamente a felicidade aos seus pensamentos, abria o computador e comprava roupa. Sempre em promoção, que a felicidade vinha-lhe mais da poupança do que das peças que comprava.

Dia 102

Abril 12, 2021

Ela levantou-se, em silêncio, e dirigiu-se em passo vagaroso para a porta da pequena casa de banho do café. Naquele momento, eles eram os únicos clientes no estabelecimento. Quem a visse não imaginaria que dentro da mochila levava um teste de gravidez que ele tinha comprado, numa farmácia com pouco movimento, na outra ponta da cidade. Antes de entrar olha-o, relutante, e ele tenta incentivá-la com um sorriso, sem soar falso. Provavelmente não conseguiu, a falta de sono dificultava-lhe a mentira. Ela entra, ele fica sentado à espera. Vê os carros que passam, sem atenção. Olha para o tecto, para os rissóis no balcão, para o relógio. Espera, desespera. Os ponteiros parecem não querer mexer-se. Devagar, muito devagar, começa a contar cada segundo, cada minuto, enquanto rói as unhas. Pouco mais de dez minutos depois, ela reaparece. Os olhos inchados tornam claro que esteve a chorar: de alívio ou de desespero? Perante o olhar inquisitivo, ela não demonstra qualquer emoção. Pede apenas para irem embora, e ele, sem questionar, faz-lhe a vontade. Paga, sai, e corre atrás dela. Durante mais de uma hora andam lado a lado, sem destino, em silêncio.

Dia 101

Abril 11, 2021

Entrou na loja e procurou o que queria. Nada de muito espalhafatoso ou brilhante, só uma pequena lembrança. Na loja, o empregado com idade para ser seu pai tomou-o por pessoa sem posses, após uma análise rápida das sapatilhas que trazia calçadas e do pedido: mais simples, na cabeça dele, apenas significava mais barato. Foi lesto a inferir que não era o tipo de cliente que pretendia, e não se esforçou para procurar satisfazer os seus pedidos. Não havia o que queria, e também não era possível encomendar, e em cinco minutos ficou despachado o assunto. À saída, foi cumprimentar o dono da loja, identificando-se e passando os cumprimentos dos seus avós, clientes fiéis mesmo em anos mais complicados. Bastaram cinco palavras para a atitude de toda a loja mudar para com ele. De repente, já não achavam que ele pretendia algo simples por não ter dinheiro para mais, mas apenas porque era assim o seu requintado gosto. Mais dois minutos e estavam a oferecer-se para encomendar tudo, e com generosos descontos. Com o estômago às voltas e contendo a revolta, saiu da loja e entrou na seguinte.

Dia 100

Abril 10, 2021

Esperava o autocarro sentado no passeio. O que queria apanhar não passou, forçando-o a mais quarenta minutos a aguardar pelo próximo. Tinha fome, e o estômago não deixava de o demonstrar. Não comia desde que saíra de casa, e já há mais de doze horas. Bebeu uma cerveja em lata para assinalar o fim do dia de trabalho, que caiu em seco e o deixou de cabeça leve. A chuva começou a cair em força, lembrando-o do país onde nasceu. Procurou abrigar-se na paragem onde só estava uma senhora com a neta, sorriu-lhes, e sentou-se. A mulher afastou-se um pouco e agarrou o braço da criança. Ele nunca se iria habituar a estes gestos. Queria perguntar-lhe se tinha sido pelo tom de pele, pelo facto de ser alto e encorpado, ou pelas calças sujas de tinta, mas não conseguiu lembrar-se de um cenário em que essas perguntas não o tornavam ainda mais ameaçador. Mais valia ficar quieto e calado, pensou, e rezar para que o autocarro não demorasse.

Dia 99

Abril 09, 2021

Depois de um longo passeio, sentei-me na esplanada amarela: mesas, cadeiras, tudo do mesmo plástico. Uma senhora de óculos fundos limpava as mesas que iam ficando vagas a um ritmo acelerado, enquanto eu aguardava que me atendesse. À medida que o tempo passava, percebi que não tinha grande interesse nisso. O sol já não batia ali, interceptado na queda por um prédio, e ela quereria arrumar o dia. Não convencido, entrei para pedir um fino - não tinham, contentei-me com uma média. Na esplanada já só estava eu e uma rapariga de ar andrógino, concentrada a martelar as teclas do portátil, enquanto bebia cerveja e ia acendendo cigarros. Da minha mesa eu tinha visão oblíqua para as costas dela, e necessariamente para o ecrã do computador. A minha curiosidade não se controlou, e percebi que escrevia uma tese de mestrado. De headphones enterrados no cabelo escuro, levantou-se duas vezes para ir buscar cerveja - na mesa dela já se acumulavam mais garrafas do que seria razoável. Pela concentração e ferocidade com que escrevia, estou certo que a tese só poderá culminar num claro sucesso ou um inolvidável fracasso.

Dia 98

Abril 08, 2021

Descobri-lhes há dias o nome: periquitos-de-colar, ou periquitos-rabo-de-junco. Apesar de só agora os ser capaz de nomear, há muito que convivo com esta ave, mais papagaio que periquito. Aparecem sobretudo ao fim da tarde, fazendo-se anunciar com impacto. Interrompo o trabalho e vou vê-los a perseguirem-se aos gritos por entre as árvores. Não é difícil encontrá-los, apesar de se confundirem com as folhas verdes da primavera - basta olhar fixamente a copa, sem mover o olhar, e só desviar quando se sente movimento. Após uma pesquisa rápida descubro que há quem os veja como praga, colonizadores de árvores desrespeitando e expulsando os anteriores inquilinos; essa análise ultrapassa o meu conhecimento, que se resume à cor das suas penas e ao som do seu canto. Por se parecerem demasiado com papagaios acabados de fugir de gaiolas, fico sempre na expectativa que comecem a gritar palavrões aleatórios, ao mesmo tempo que espero que não os aprendam com quem passa na rua. Eles que continuem, os pássaros cantam sempre melhor do que nós.

Dia 97

Abril 07, 2021

As pessoas têm-me fugido nos últimos tempos. Fugido tanto que lhes perdi o rasto durante dias, semanas, meses. Tudo me tem fugido, até a contagem do tempo. Tento agarrar-me ao dia para que ele não fuja também, mas a noite instala-se demasiado cedo. Agarro depois a noite até que ela me traga o dia, neste divertimento cíclico. Baralho-me no tempo e baralho-me nos comprimidos, acabo por tomá-los sem critério. Com o sono, as coisas têm andado divididas. Primeiro é ele a fugir-me, quando eu quero descansar, mas depois sou eu que lhe fujo de noite, na esperança de ver chegar o dia. Ele vence-me, amiúde, e empurra-me à cama quando o sol vem. A cama não foge, fica lá quieta a esconder os anos de pó sobre os quais se decidiu instalar. Nem eu lhe fujo, mas nem por isso temos convivido em paz. Quando me deito e apago as luzes, tentando enganar a ordem do mundo, começam as conversas. Não sei quem fala, mas às vezes falam de mim, suficientemente longe para não as ouvir bem mas alto o bastante para me encherem a cabeça. São murmúrios que me furam as têmporas de mansinho, da direita para esquerda, murmúrios imunes a comprimidos, imunes ao sono de dias a fio. Forçam-me de volta ao sofá, mas mantém-se sempre um eco. Tento afogar as vozes, todos os dias aparecem garrafas novas no chão da sala, e elas lá acabam por desaparecer. O sono desaparece também. Abro a janela ao barulho das pessoas a irem trabalhar, dividido entre o prazer que me dá vê-las ao longe e a falta que me faz tê-las perto.

Dia 96

Abril 06, 2021

A música vinha da janela, doce e solarenga, um presente a quem passava na rua. Ia carregado de sacos de compras, cansado pelo sol, pingas de suor escorriam-me para a barba, e aproveitei a oferta para abrandar o passo. Naquele momento, ao passar junto àquele rés-do-chão de janela aberta, fui transportado pelos sentidos. Num segundo passei de estar a caminhar pelo labirinto de um bairro residencial de Lisboa para ali, sentado ao lado de Drummond num banquinho à beira-praia. Estávamos virados em sentidos opostos: ele olhava a rua, eu olhava o mar. Ouvia os miúdos a jogar na areia (ninguém joga como aqueles miúdos, naquela areia) e sentia o cheiro a queijo frito. A voz que vinha da janela dizia com suavidade que eu não prestava, mas eu não lhe ligava, só sentia o calor do timbre e do sotaque, aquele sotaque de quem consegue safar-se com tudo, e no fundo sabia que as palavras que cantava não interessavam, desde que as continuasse a cantar assim.

Dia 95

Abril 05, 2021

Há coisas de que só nos lembramos quando nos aparecem à frente. O resto do tempo vivemos sem elas, sem tristezas nem alegrias pela irrelevância da sua ausência. É o caso das margaridas que surgem agora no relvado do jardim, abundantes pontos brancos que apareceram com o sol. Enquanto hibernaram, nem por um segundo me recordei delas, e agora não as consigo tirar da cabeça. O mesmo acontece, também, de forma oposta: há um manancial de coisas a que só damos importância quando desaparecem. É um enorme jogo de encontrar diferenças na paisagem, que nem sempre ganhamos. É o caso do homem que passeava de boina pelo bairro. A meteorologia ou a hora eram irrelevantes e incertas, ele guiava-se por uma liberdade muito própria, sempre de boina, sempre a apanhar flores ou folhas. Precisei de ouvir, mero acaso, que estava internado em estado grave há pouco mais de um mês, para lhe sentir a ausência. Passei a ver o fantasma dele agachado no jardim, sentado na esplanada, ou a descansar encostado ao muro, na sombra da árvore. Ele haveria de estar à espera das margaridas, ele haveria de lembrar-se delas mesmo nos dias mais invernosos.

Dia 94

Abril 04, 2021

Trabalhar era uma obrigação que lhe custava cada vez mais a cumprir. Era uma escolha: ou ganhava dinheiro para ser feliz, ficando sem tempo para isso, ou tinha o tempo para ser feliz, mas faltar-lhe-ia o dinheiro para jantar fora ou viajar. Focava-se nos objectivos, mas cada dia que se olhava ao espelho, no elevador, ao subir para o escritório, lhe custava mais ver-se a fazê-lo anos a fio, a consumir-lhe o tempo que teria para ser feliz. Prometia-se que um dia mudava de vida, mas que naquele momento era o melhor que podia fazer com o pouco que tinha. Ainda assim, isso não a satisfazia. O pior eram as épocas festivas. Cada vez que ficava uns dias em casa percebia o quão mais feliz era a fazer tudo o que não fosse trabalhar. Isso reflectia-se quando voltava ao trabalho e pintava o mundo ainda mais cinzento que antes, cada tarefa terrivelmente mais aborrecida do que na semana anterior. Cada vez se sentia mais presa, cada vez mais temia que a sua vida não passasse daquilo. A ideia de um mundo sem trabalho ia-se afastando, lentamente, sem qualquer pressa, como quem se sabe rejeitado.

Dia 93

Abril 03, 2021

Era ritual de passagem: se nos convidasse para ir jantar a casa dele, sabíamos que estávamos no bom caminho. Entrei já carregado de preconceitos formados pelos relatos de colegas. Na empresa era o chefe, fora dela era um louco colecionador de objetos tão distintos entre si como aleatórios. Convidou-me a sentar no sofá, enquanto ia buscar aperitivos, mas preferi ficar em pé a observar as paredes. O sofá, verde azeitona, parecia saído de uma série futurista dos anos 80, mas mal se via por entre a cobertura de almofadas rendadas. Em cima do sofá, irrompendo da parede, uma cabeça de veado impunha a sua presença, ladeada por fotos, a preto e branco, que deduzi serem suas em criança. Em cima, quase a roçar o tecto, tinha uma série de cinco máscaras africanas, todas distintas, mas de algum modo parecidas entre si. As paredes eram rosa, um rosa claro que contrastava com a carpete amarela em que fiquei plantado. Nos cantos estavam plantas, ostensivamente falsas e brilhantes, em vasos improvisados. Imaginei-me a entrar naquela sala sem conhecer o dono, e não consegui formar uma imagem sobre o tipo de pessoa que ali viveria.

Dia 92

Abril 02, 2021

Não sabemos de onde surgiu, e provavelmente não saberemos nunca. Basta abrir o primeiro site que nos aparece na internet para saber que costumam aparecer juntas, invasão de grupo. Não foi isso que aconteceu. A primeira vez que a vimos foi a vaguear pela sala. Sentados no sofá a meia luz, a ver televisão, vimos um ponto preto a andar junto à parede. Parecia uma pedra que se movia, como se uma ínfima formiga a carregasse. Corremos em busca de um sapato, arma infalível quando se trata de insectos, e do interruptor da luz, mas foi o suficiente para desaparecer. Virámos a sala do avesso, sem sucesso. Agora vemo-la a aparecer pontualmente - sim, queremos muito acreditar que é sempre a mesma. Já não nos assustamos, ela também não. Desconfiamos que dorme debaixo do frigorífico (as baratas dormem?) mas não temos paciência nem vontade de o arrastar para tirar a questão a limpo. Na verdade, já nos fomos acostumando à ideia de ter um animal de estimação.

Dia 91

Abril 01, 2021

Esfregavas os pés com a toalha, de forma desordenada, na tentativa de expulsar todos os grãos de areia antes de calçares as meias. Notava-se a distracção, olhavas o sol que ia escorregando pela paisagem até mergulhar no mar, o mesmo onde também tinhas mergulhado minutos antes. Os óculos de sol distorciam-te a expressão, que podia ser de felicidade por um dia bem passado ou de tristeza por ter terminado. Tinhas a pele queimada no rosto e nos braços. Estavas vermelha, salgada, cansada. O sol mói como ninguém, empenha-se em fatigar-nos pela calada, mas nós perdoamos sempre. O cabelo alourado, mais claro do que é costume, estava apanhado no topo da cabeça, como um ananás humanizado. A mochila estava pousada no banco, e tinhas as sapatilhas e chinelos à frente. Não reparei em nada disto quando estava no banco do lado, já calçado, atrás da câmara, mas basta olhar outra vez a fotografia para te sentir o cheiro ao protector solar, a pele quente, o sal nos lábios. Se a olhasse com mais atenção, ia jurar que te ouvia a pedires-me, num sorriso, para parar de te tirar fotos, mesmo sabendo que era um pedido que não podia cumprir.

Dia 90

Março 31, 2021

Tirou a chave para abrir a porta de casa, e a solidão atacou-a logo ali. Sabia que depois do taxista, mais ninguém lhe desejaria uma boa noite. Entrou e dirigiu-se ao espelho do quarto. Ver aquele vestido, branco, justo, e comprido, deixava-a sempre feliz. Tinha sido uma oferta de um estilista, e esperou meses até o poder usar. Sentia-se bela e luxuriosa. Um colar simples, só com um pingente de diamante, enquadrava-lhe o decote. A pele morena enrugava-se sob o colar. Não estava a ficar mais nova, e isso começava a notar-se. O estômago sobressaía do vestido, ainda que de forma imperceptível a qualquer olho que não os dela. Levantou os braços e puxou o cabelo para trás das orelhas. Pretendia ver os brincos, brilhantes como sempre, mas o olhar fixou-se nos seus braços, nas peles que se acumulavam encolhidas junto à axila. Os braços continuavam magros e firmes, mas a pele do seu corpo parecia crescer oca, como um balão esvaziado. Virou-se para ver as costas pouco cobertas, e sentou-se para se descalçar. Sentia-se agora ridícula, mesmo que toda a noite tenha recebido elogios. Ao fim de todos estes anos, já nem os vestidos lhe curavam a solidão.

Dia 89

Março 30, 2021

Sentava-se no banco mais perto da entrada do jardim, a olhar o mundo à sua volta. Via de forma diferente, o pescoço dobrado para trás como se farejasse o ar. Espreitava por debaixo das lentes dos óculos que lhe serviam para o perto, mas o enganavam ao longe. Viam a árvore, mas não o ajudavam com a floresta. Era frequente ser interrompido pelos turistas, que vendo um homem a olhar a rua, não hesitavam a abordá-lo com pedids de ajuda. Os que lhe falavam em línguas estrangeiras, enxotava com gestos universalmente aceites. Não os entendia, não valia a pena o esforço. Era tomado por maluco, mas só o seria se isso lhe interessasse. Apareciam-lhe cada vez mais brasileiros, que ajudava dando um sotaque quente às palavras. Às vezes era interpretado como ofensivo, mas fazia o mesmo com o sotaque do Porto, Alentejo ou ilhas (para ele só havia um sotaque das ilhas, nunca tinha estado com um açoreano e um madeirense ao mesmo tempo para lhes poder entender as desconformidades). Era raro saírem satisfeitos, mesmo quando as indicações eram tão claras como quando os mandava seguir o elétrico amarelo, descer a rua do café, virar ao mar na loja da D. Joaquina e, finalmente, seguir a rota da última gaivota.

Dia 88

Março 29, 2021

Enquanto o marido pedia mesa para os três, ela tirava fotos. À fachada do restaurante, aos autocolantes na porta, aos candeeiros, à bicicleta presa na parede. Agradeceu quando lhe puseram o menu à frente, e fotografou-o antes de o ler. Fez o pedido. A sua cara mostrava indecisão ou impaciência, um trejeito de um sorriso que facilmente podia cair para qualquer dos lados. Fotografou o filho a comer pão. Ele já nem notava, habituado aos profícuos disparos. O marido não era visado. Talvez não gostasse de ser modelo, ou simplesmente não teria capacidade de gerar likes ao ritmo desejado. Quando chegaram os pratos principais, proibiu de forma impetuosa que tocassem na comida. Levantou-se, colocou-se de joelhos na cadeira e começou a fotografar os pratos num perfeito eixo vertical. Não chegava ao do marido, a mesa era demasiado larga. Podia passar-lhe a máquina, mas preferiu levantar-se e colocar-se atrás dele, cotovelos apoiados na sua cabeça, sem que ele parecesse incomodado. Pousou a máquina e passou o resto do jantar desfazendo-se em felicidade, fosse pela comida ou pelos posts que já se imaginava a fazer mal chegasse a casa, enquanto o marido deitava o filho.

Dia 87

Março 28, 2021

Quando pensava nos sete pecados mortais, ocorria-lhe sempre a ira. Era um poço de indignações e irritações. A todos impressionava o facto de serem as coisas mais pequenas as que mais pareciam irritá-lo. Não o fazia por mal, desculpavam-se os outros por ele, simplesmente não o conseguia evitar. Discutir com ele era como jogar ténis contra a parede: por maior que seja o nosso arsenal de pancadas, a parede responde sempre, acabando por vencer pelo cansaço; e quanto mais forte batermos a bola, mais rápido ela volta. Nos poucos momentos de lucidez pós-ira queixava-se que sabia que era intransigente e impulsivo, mas sentia que era isso que se esperava dele. Costumava dizer que as coisas pequenas rebolam e enchem até serem grandes demais, e por isso é que ele as combatia com ferocidade desde o primeiro momento. Usava manipulações de argumentos que sabia não passarem disso, mas que faziam o trabalho. Dizia o que tivesse de ser, preocupando-se mais em dizer o que os outros não queriam ouvir do que aquilo em que acreditava. Eram as pequenas coisas, as pequenas coisas é que traziam o pior dele à tona; fora isso, até era bom rapaz.

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