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EM SOL MENOR

EM SOL MENOR

Dia 97

Abril 07, 2021

As pessoas têm-me fugido nos últimos tempos. Fugido tanto que lhes perdi o rasto durante dias, semanas, meses. Tudo me tem fugido, até a contagem do tempo. Tento agarrar-me ao dia para que ele não fuja também, mas a noite instala-se demasiado cedo. Agarro depois a noite até que ela me traga o dia, neste divertimento cíclico. Baralho-me no tempo e baralho-me nos comprimidos, acabo por tomá-los sem critério. Com o sono, as coisas têm andado divididas. Primeiro é ele a fugir-me, quando eu quero descansar, mas depois sou eu que lhe fujo de noite, na esperança de ver chegar o dia. Ele vence-me, amiúde, e empurra-me à cama quando o sol vem. A cama não foge, fica lá quieta a esconder os anos de pó sobre os quais se decidiu instalar. Nem eu lhe fujo, mas nem por isso temos convivido em paz. Quando me deito e apago as luzes, tentando enganar a ordem do mundo, começam as conversas. Não sei quem fala, mas às vezes falam de mim, suficientemente longe para não as ouvir bem mas alto o bastante para me encherem a cabeça. São murmúrios que me furam as têmporas de mansinho, da direita para esquerda, murmúrios imunes a comprimidos, imunes ao sono de dias a fio. Forçam-me de volta ao sofá, mas mantém-se sempre um eco. Tento afogar as vozes, todos os dias aparecem garrafas novas no chão da sala, e elas lá acabam por desaparecer. O sono desaparece também. Abro a janela ao barulho das pessoas a irem trabalhar, dividido entre o prazer que me dá vê-las ao longe e a falta que me faz tê-las perto.

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