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EM SOL MENOR

EM SOL MENOR

Dia 59

Fevereiro 28, 2021

Tirou o charuto e fechou a caixa. Era uma pequena caixa de madeira clara, que o levava directamente para momentos que já não voltariam. Sol, praia, muita cerveja, muito amor. Lembra-se de comprar aquela caixa de charutos numa cidade pequena, directamente numa loja improvisada à saída da fábrica onde o levaram de autocarro, por estradas mal cuidadas, a cerca de uma hora de Havana. Ela não queria ir, mas acabou por convencê-la. Naqueles dias era tudo simples, era tão fácil cederem um ao outro, até os desentendimentos se processavam entre risos e beijos. Arrumava agora a caixa a pensar no momento em que as coisas começaram a correr mal, mas nunca conseguiu identificar um ponto concreto. Lembra-se de ver a bola de neve a crescer, mas não consegue precisar o momento em que ela se formou. Ainda lhe sobravam charutos, de que desfrutava com parcimónia. Fumava-os não tanto pelo prazer que lhe dava sentir fumo do tabaco, mas pela oportunidade de viajar até lá, aos dias em que ainda era feliz.

Dia 58

Fevereiro 27, 2021

Os miúdos metiam-se com ele porque sabiam que iam sempre ouvir histórias novas e incríveis. Como daquela vez na guerra em que salvou uma vila inteira, fugindo do seu regimento durante a noite para avisar os locais que pela manhã iam invadir todas as casas, sem cuidado e dedos leves nos gatilhos, à procura de um general adversário. Algumas eram mentiras claras, outras exageros montados sobre uma base de verdade, mas já ninguém sabia distinguir. Como aquele golo que marcou ao Belenenses e nos deu o campeonato de 1962, ou a vez em que salvou um actor famoso, americano, de um afogamento no Algarve. Quando confrontado dizia sempre o mesmo: preferia lembrar-se das interações que não teve e criar o seu passado, do que ser o passado real a criar a pessoa que era agora. Assim, podia ser sempre diferente, consoante as recordações que criava para si. Como a história de como tinha conhecido a avó, que era a mulher mais bonita do mundo, e que conquistou quando desceu do pódio da volta em bicicleta da região para a beijar, sem nunca terem falado antes.

Dia 57

Fevereiro 26, 2021

A fila dos correios era feita na rua e chegava à estrada. Os desconhecidos deixavam um metro de intervalo entre si, mas ninguém estava sozinho na fila. Dois rapazes com uma caixa enorme pousada no chão, que iam verificando com o maior dos cuidados, o casal de idosos que parecia com pressa, ela sempre a olhar o relógio, um jovem, acompanhado pela namorada, que abanava um papel para levantar uma encomenda, duas senhoras que optaram por esperar sentadas nas escadas do prédio ao lado, onde a fila já chegava. Olhavam os cães brincando aos saltos sem trela no jardim, tão descoordenados quanto divertidos. Ambos os donos falavam ao telefone, cada um de seu lado do jardim. Os cães pareciam conhecer-se bem, mas eles, ambos de trela na mão, não pareciam querer seguir-lhes o exemplo. Num banco, em cima de uma fita de plástico que pretendia interditá-lo, um homem fala com o seu amigo imaginário, numa das longas conversas que têm diariamente. Sentada na varanda a olhá-los, ela sentiu o peso da solidão.

Dia 56

Fevereiro 25, 2021

Papel higiénico, do mais barato. Tudo do mais barato, na verdade. Champô, sabonete, uma escova de dentes, que a tua já está gasta, parece o teu cabelo desordenado quando acordas. Lixívia. Amaciador para a roupa - mas se a conta ultrapassar o que levas, é a primeira coisa a ficar. Pão, um cheirinho de fiambre, mas pouco, margarina. Pão de forma para os miúdos, mas só se estiver em promoção. Eles gostam das sandes em triângulos. Feijão, tomate, arroz, massa. Umas febras de porco, fininhas para esticar, e iscas de fígado. O peixe está caro, desta vez não dá nem para os douradinhos. Mais umas febras ou umas moelas, então, logo vês na hora. Batatas e cebolas ainda há, traz uma couve e cenouras. Das rijas, não te esqueças. O feijão já disse, mas não te esqueças de trazer daquele de frasco, que depois isso aproveita-se. Polpa de tomate em frasco, também. Atum, leite, ovos. Se der, traz um chocolate para os miúdos, eles ficam tão contentes.

Dia 55

Fevereiro 24, 2021

Pareceu-me logo demasiado nova para ser mãe, mas o sorriso com que olhava o carrinho não enganava. Falava ao telemóvel enquanto o empurrava em círculos, abrindo caminho pelas folhas castanhas. O bebé trepidava com os paralelos. Não lhe via o rosto, mas o silêncio indicava que não se importaria. Com uma regularidade de cronómetro, ela parava, prendia o telemóvel no ombro, e ajeitava as roupas da criança contraindo-se em caretas. Exultava uma felicidade que era impossível não ser notada, a felicidade de quem não se importava de interromper a juventude num salto directo para a maternidade. Talvez incitadas pelo trajecto circular, as folhas começaram a subir, empurradas pelo vento. Durou três segundos, se tanto, mas foi o suficiente para ela largar o telemóvel e, num torvelinho de emoções desprogramadas, se deitar sobre o carrinho, cobrindo o bebé. Quando a última folha retornou à calçada portuguesa, ela olhou à volta com vergonha, esperando que ninguém a visse de cócoras a procurar o telefone entre as restantes.

Dia 54

Fevereiro 23, 2021

O candeeiro na cabeceira era mera luz de presença, não permitia a leitura. Iluminava de mansinho a chávena de cerâmica pintada, os dois livros - àquela distância era impossível ler os títulos, mas o de cima era pesado e de capa amarela e o de baixo branco e estreito, quase sem lombada - e a caneta pousada na mesinha, bem como a almofada encostada à parede. A fronha era bege e com flores a pontuar a monotonia. A mesinha tinha de um lado a cama e do outro uma cadeira antiga, onde ele largara a roupa do dia sem critério. Uma manga de camisa roçava o chão de madeira com desespero. O quarto era monástico e obscuro, mesmo com o estore mal fechado. Estava vazio, mas cheirava a pessoas, como se alguém o tivesse abandonado em fuga pela janela sem cortinados. Fechei a porta sem ter chegado a ultrapassá-la, não me aventurei a apagar a luz.

Dia 53

Fevereiro 22, 2021

Passou a vida toda assim, curvado à terra. Os horários ditava-lhos o sol: acordar antes dele, fazer a sesta às piores horas. Ao fim do dia ia passar outra vez a mão pela terra, descansando-a e prometendo voltar no dia seguinte. Nunca na vida entalou os cobertores a um filho, mas não era capaz de se deitar sem se despedir da terra. Insistia em não usar animais, primeiro, ou máquinas, depois. Nem luvas queria usar, tiravam-lhe a sensibilidade ao toque. Usava sachos, enxadas, e pás, e isso bastava-lhe. Quando a mulher morreu, foi ele abrir-lhe a cova: não fazia sentido ir outro fazê-lo, quando ele sabia como ninguém do que ela gostava. Deixou-a coberta de flores de amendoeira, as únicas que lhe nasciam no terreno. Resistiu sempre à vontade dos filhos de o levar dali, primeiro por causa das costas, depois quando os olhos lhe começaram a falhar. Foram eles, ficou ele, todos os dias revolvendo e esticando a terra.

Dia 52

Fevereiro 21, 2021

Ao chegar a casa passo pelo enorme limoeiro da escola. Debruçado para o passeio como quem espreita apoiado no parapeito, vai largando frutos que explodem no passeio, deixando-o intransitável. As opções são saltar para a estrada por uns segundos, ou ficar com os sapatos pegajosos e arriscar ser atingido. Opto quase sempre pela primeira, enquanto me vou deliciando pelo cheiro que a fruta madura larga. Se me perguntassem, era assim que identificava o cheiro da minha rua. Aliás, estou certo que seria capaz de reconhecer cada rua onde morei só pelo cheiro: a relva cortada de uma, o cheiro a pão quente de outra. Agora, quando está mais vento, abro sempre a janela e sinto que a fragância a citrinos me entra pela casa, ao mesmo tempo que me apercebo que não é possível cá chegar. No fundo, sei que é só o meu cérebro a dar-me o que eu quero.

Dia 51

Fevereiro 20, 2021

A carrinha é azul, com pinceladas de ferrugem. Está parada no mesmo sítio há semanas, eventualmente por opção. Pode também ter avariado enquanto descansava de uma viagem que imagino recorrente, e que o condutor foi incapaz de reanimar. Dormem lá os quatro: um casal na casa dos cinquenta e os dois filhos, dois rapazes com idades impossíveis de prever, mas certamente com menos de dezoito anos. Quando está sol fazem vida no jardim relvado; quando chove, abrem a porta traseira, como a mala de um carro normal, e comem sandes abrigados à sombra. Nunca os vi longe do jardim ou da carrinha, como se fossem totalmente auto-suficientes. O mais novo corre atrás do estranho animal de estimação, um cão pequeno e magro quase sem pelo, que corre torto mas feliz. O mais velho deita-se a ouvir música e a olhar o céu. Os pais lêem e riem-se um para o outro, intercalando-se para enrolar cigarros. A carrinha parece morta de velhice, mas só eu é que pareço preocupado com isso.

Dia 50

Fevereiro 19, 2021

O segurança vai passando pelas brasas na cadeira, entre passeios. Anda sobretudo para se obrigar a acordar, mais do que por vigilância, usando o vento frio como quem bebe uma chávena de café. A recepcionista aguarda que alguém dê entrada, enquanto joga solitário no computador, esforçando-se por não sucumbir ao sono. Na sala de espera, alguns dos que lá foram por vontade própria já não são capazes de combater o peso das horas, e vão dormitando entre as dores moderadas. Os auxiliares surgem empurrando macas em câmara lenta pelos corredores vazios, o chiar das rodas a fazer lembrar um filme de terror. As enfermeiras revezam-se para ir espreitar os doentes na sua enfermaria, enquanto vêem séries na salinha de descanso. Alguma que comece a encostar-se, acaba por acordar com a porta a abrir e a fechar. Os médicos vão vendo os doentes que lhes aparecem, contrariados e irritados com o que passa por urgência naquele hospital. Àquela hora, não há uma alma que ali queira estar.

Dia 49

Fevereiro 18, 2021

Entraram no avião, tiraram o que precisavam das mochilas - ele um pacote de pastilhas e o portátil, ela um livro e um pacote de lenços - e arrumaram-nas à força nos compartimentos já atafulhados. Mal se sentaram, ela tapou os ouvidos com os headphones que levava presos no pescoço. Não mexeu no telefone para escolher o que ouvir; provavelmente estariam em silêncio. Ele perguntou-lhe se estava bem, se não estava nervosa. Descolou o headphone do ouvido a meio da frase, e respondeu apenas que estava tudo bem enquanto se virava para a janela. Dois minutos depois, colocou-lhe a mão sobre a perna para atrair a atenção dela e perguntou se queria uma pastilha. Ele sabia que ela tinha um pacote no bolso, nunca se esquecia, mas precisava de a ouvir a pensar, a falar, de lhe medir os sentimentos de algum modo. Não era a maneira certa de começar uma viagem em que ambos iam estar sempre juntos, no meio de um país desconhecido. Ela não respondeu. E então, abrindo o livro e sem sequer esboçar uma palavra, disse-lhe adeus.

Dia 48

Fevereiro 17, 2021

Decidimos não ficar na capital da ilha, e também não dormir num hotel. Optámos por um pequeno alojamento numa aldeia de ruas brancas e estreitas, com casas muradas, de onde conseguíssemos ir à capital a pé. O único som que se ouvia eram os cascos dos burros a escorregar pelo cimento pintado, quando chegavam novos turistas. Ao fim do primeiro dia, o arrependimento. A distância não era particularmente longa, mas nos nossos cálculos não levámos em conta a camada de calor que cobria todos os segundos. Invejámos as pequenas motas que os turistas mais avisados usavam, mas a opção estava tomada. Felizmente, a casinha onde ficámos era simpática e fresca, e os donos - que não falavam uma palavra de outra língua que não a local - eram cuidadosos. O pequeno-almoço do dia seguinte era colocado, para não incomodar, no pequeno frigorífico do quarto durante a tarde, quando estávamos fora. Mal chegávamos, tinha de ser esvaziado para colocarmos nesse frigorífico as garrafas de água compradas. Tomávamos um banho, íamos para a varandinha do quarto e comíamos sob as estrelas, enxotando mosquitos, o pequeno-almoço do dia seguinte.

Dia 47

Fevereiro 16, 2021

Passo diariamente à frente de um hospital, e o cenário não muda nunca. Carros em primeira e segunda fila, particulares misturados com táxis, tudo num local onde é proibido estacionar. Carros que esperam alguém, imóveis face à doença. O cenário também se mantém independentemente da hora, apenas com alguns acertos. De manhã, os carros mal estacionados têm pessoas dentro, ouvindo rádio e tomando o pequeno almoço. Ao almoço, quando o sol aperta, os carros esvaziam-se de janelas abertas e os condutores vão procurar o abrigo da sombra das árvores no passeio. Não deixam os carros abandonados, apenas optam por controlá-los à distância. Ao jantar, vencidas pela fome, vejo as pessoas a comer: ou sandes e bolos da pastelaria, ou refeições mais completas que foram buscar ao restaurante chinês, rapando com garfos de plástico as embalagens de alumínio. Só quando passo de noite e vejo a fila de carros com os vidros embaciados e pessoas a dormitar, é que percebo que o que as mantém ali não é mais do que coragem.

Dia 46

Fevereiro 15, 2021

Bastava ficar dez minutos na esplanada para os ver passar. Mochilas e cabeça baixa, seguindo o Google Maps cegamente em busca de um qualquer graal escondido a que tirariam centenas de fotos. Normalmente nem era um monumento ou um museu, mas o local onde filmaram aquela série ou aquele filme, onde os protagonistas se conheceram/beijaram/discutiram/morreram (selecionar a opção mais conveniente). Levantassem a cabeça e veriam a lindíssima fachada da igreja, toda em azulejo, mesmo ali à minha frente. Mas isso implicaria perderem-se por um segundo, desviarem-se daquele trajecto mais rápido recomendado pela máquina. Chegariam atrasados ao local prometido pela Netflix ou por fotografias no Instagram, como se atraso fosse um conceito aplicável ao turismo. Se fossem olhando em volta, seguindo o percurso a espaços - nota aos distraídos: se se desviarem, o Google Maps altera automaticamente o trajecto, pelo que nunca se perdem verdadeiramente - veriam que ao meu lado na esplanada havia uma mesa à sombra, onde podiam secar o suor e hidratar o corpo com o fino mais gelado da cidade. 

Dia 45

Fevereiro 14, 2021

Sentada na relva, não levantava os olhos do telemóvel. O miúdo andava de bicicleta pelo jardim, com o cuidado de não se afastar muito. Capacete, cotoveleiras e joelheiras, defesas excessivas para uma possível queda na relva fofa. Pedalou de volta para ela e perguntou-lhe, com a excitação de uma criança, viste, mãe, fui tão rápido, e ela, com o entusiasmo de uma mãe aborrecida, só disse boa, mas tens de ter mais cuidado. Ele atirou a bicicleta ao chão, vencido pelo desinteresse da mãe, e procurou novo brinquedo. Estavam dois miúdos a jogar à bola, e ele perguntou mãe, posso ir jogar com eles, ao que ela, sem levantar os olhos do telemóvel, disse não, anda de bicicleta, mas porquê, perguntou ele, para ouvir porque aqueles meninos têm o vírus e tu depois ficas doente. Ele gaguejou, como se preso num trava-línguas, incapaz de responder que os meninos não pareciam assim tão doentes. Aliás, pareciam até mais divertidos que ele.

Dia 44

Fevereiro 13, 2021

Bastou-me vê-lo a deitar a lata de cerveja no caixote, logo pela manhã, para isso me levantar uma miríade de questões. A primeira, e porventura a mais óbvia, é tentar perceber o porquê. Prazer, cansaço, necessidade, tristeza, alegria: são tudo bons motivos para se beber uma cerveja, seja a que hora for. Isso levou-me a outra pergunta, logo de seguida: quem seria aquele homem? Percebi que não chegaria ao porquê, sem saber o quem primeiro. O meu cérebro não conseguiria chegar a uma explicação satisfatória enquanto essas duas peças não encaixassem. Continuei a minha volta matinal, imaginando aquele homem como sem abrigo, como alcoólico, como alguém que trabalhou a noite toda e estaria agora a sair do seu turno, como alguém que teria sido abandonado pela mulher, como um homem que soubera há momentos que seria pai e festejou naquele sítio e naquele momento, com o champanhe possível. No corpo dele, só tem direito a uma vida; na minha cabeça, teve múltiplas, todas decorridas em pouco mais de meia hora.

Dia 43

Fevereiro 12, 2021

Há meses que não entrava num hotel, e a diferença atingiu-me em força. Depois de desinfectado e medido - a temperatura, no caso - incentivaram-me a tratar dos meus assuntos rapidamente. Os sofás daquele lobby deviam estar sedentos de pessoas, questionando-se o que acontecera para durante meses não serem ocupados. Sempre gostei de me sentar neles: fingia que lia um livro mas simplesmente observava a vida a acontecer. Pessoas que combinavam encontros, negócios e prazer lado a lado, no bar do lobby; deslocados de casa que se sentavam a trabalhar nos seus portáteis, para fugirem à solidão dos quartos de hotel; famílias que aguardavam em excitação o transporte que as levaria a conhecer a cidade; pessoas que ali decidiram ser o melhor local para depositarem a tristeza no fundo de um copo. A confusão fazia o espaço, e a desinfecção eliminou simultaneamente vírus e emoções humanas. Por momentos, parado a recordar os cheiros e sons sem que ninguém viesse contra mim, senti saudades do rebuliço do antigamente.

Dia 42

Fevereiro 11, 2021

Parámos no semáforo. À nossa volta as pessoas aceleravam o passo para se abrigarem da chuva. Enquanto esperávamos a luz verde, ela viu o corpo de um homem a surgir no cimo do muro da igreja. A igreja tem um pequeno jardim murado, com duas oliveiras e meia dúzia de canteiros com flores. Ele surgiu na parte em que o muro é de pedra, grossa e pouco mais alta que um homem, mas a noite impedia-nos de o ver através do gradeamento que existe ao lado. Parecia estar a fugir, mas impressionava a sua lentidão. Após içar-se no muro, deitou-se sobre ele, como que descansando de uma tarefa que não se afigurava assim tão cansativa. Espreitou para o lado de fora, como se estivesse a medir as vertigens. Procurava a caixa de electricidade que estava encostada ao muro, do lado de fora, e serviria de degrau. Houve planeamento, o que contrastava com a forma alcoolizada como se mexia. Qualquer miúdo esticava a perna e descia dali em instantes, mas ele procurava tropegamente a caixa em coices, a medo. Alguém buzinou, e avançámos como quem é forçado a sair do cinema ao intervalo. Ainda hoje imagino o que teria ido roubar: se flores, se as azeitonas amargas caídas das oliveiras.

Dia 41

Fevereiro 10, 2021

Sempre que visito museus, tendo a fixar-me em 3 ou 4 obras com maior atenção. Não são previamente escolhidas e não são normalmente as obras que me levaram lá, mas sim pequenas pérolas que, por algum motivo, me deixam preso ao chão, a metro e meio delas, durante mais tempo do que é usual. Umas vezes tiro uma foto apenas à placa com a informação do quadro, para mais tarde pesquisar. Outras, normalmente em viagens mais longas ou com acesso mais restrito à internet, opto por tirar ao próprio quadro. Sei que nos dias seguintes vou pensar nele em momentos inusitados, e ajuda ter suporte visual à mão. Fotos com o telemóvel, sem flash, de baixa qualidade, que guardas amestrados tentam impedir. Sim, existem pessoas cujo trabalho é impedir de tirar fotos em museus, mesmo que sem flash. Recordo-me de visitar sozinho um museu em Chicago e parar numa obra de John Simpson. Tirei o telefone e um americano meteu-se à minha frente. Só disse duas palavras com cara feia: not allowed. Dei a volta à sala e tirei a foto quando o achava distraído. Ele viu, tenho a certeza. Horas depois, parei num Jawlensky: era profundamente diferente, mas capturava o mesmo olhar de desolação a tender para desespero contido. Quando tirei o telefone, olhei à volta, e o mesmo guarda olhava-me. Pedi desculpa num gesto com a cabeça, em silêncio, e ele disse desta vez três palavras, com a mesma cara de poucos amigos: do it, discreetly.

Dia 40

Fevereiro 09, 2021

Deixámo-nos ficar para o final. Os lugares que nos foram atribuídos eram à frente, os primeiros em económica, e entrar cedo significava ter pessoas a incomodar-nos ao passarem no corredor, batendo com os casacos e mochilas em todo o lado. Sentados ainda, vimos a fila a formar-se e as pessoas a começar a entrar, mostrando passaportes e cartões de embarque e colocando as malas de cabine dentro de uma caixa de metal para confirmar as medidas. Uma mulher foi rejeitada: a mala cabia perfeitamente na caixa, mas não poderia levar a mochila também. Quer dizer, podia; mas teria de pagar um extra. Despeitada, ela veio para junto de nós, e pousou a mala num banco vazio para a abrir. Pouco cabia na mala, mas teimou que conseguiria colocar a mochila lá dentro. Puxou para um lado, puxou para o outro, tirou camisolas que começou a vestir, mudou de calçado, empurrou a mochila disforme. Sem sucesso. A certa altura, optou por sentar-se em cima da mala, e pediu-nos para a ajudarmos com o fecho. Ali, na pose ridícula que toda a fila observava em silêncio, ansiosos por ver o final, percebia-se pela raiva no rosto dela que já não o fazia por dinheiro, mas pelo princípio.

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