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EM SOL MENOR

EM SOL MENOR

Dia 31

Janeiro 31, 2021

A sala estava escura, o candeeiro de pé não bastava para a iluminar completamente. Ela, de ombro encostado à parede, olhava o canto da sala, um ponto de fuga por onde não conseguia escapar. Dizia: eu sei. Tinha os braços cruzados sobre o estômago, como se se defendesse de algo. Era importante manter a distância, por isso optou por não se sentar ao lado dele no sofá. O corpo pesava-lhe mais a cada silêncio. Colocou o peso todo no ombro, numa diagonal que a sustentava. Eu sei, eu sei, eu sei. Repetia-o só para quebrar o silêncio, sem que ele lhe respondesse. Olhava o vazio para o qual ia sendo sugada, mas não o via. Não via nada, não ouvia nada, e ainda assim o silêncio magoava mais do que quaisquer palavras. Eu sei, dizia a espaços. Ainda assim, duvido que soubesse.

Dia 30

Janeiro 30, 2021

Imune ao tons do céu que acinzentava a cada segundo, a roupa mantinha-se na corda, caída na fachada do prédio. O vento fazia-se notar, obrigando as roupas a uma dança desconexa e irregular. No andar debaixo apanhavam meias e camisas, mas os lençóis mantinham-se fixos na corda do quinto andar. Alguém saíra de casa, indiferente aos indícios meteorológicos, ou simplesmente se esqueceu. É fácil esquecer a roupa estendida na rua, quando estamos no conforto das nossas casas. Não condeno, também pensei nas dezenas de coisas melhores que podia estar a fazer enquanto apanhava as minhas camisolas, de frente para o prédio que se cobria com roupa lavada. Num instante, o vento dobrou os lençóis sobre as molas, desprendendo uma fronha de almofada, que rodopiou no ar. Livre, insuflada como um paraquedas a abrir, deixou-se embalar pelo vento, e caiu finalmente sobre o vidro de um carro estacionado. Eu fechei a janela, e arrumei a roupa seca.

Dia 29

Janeiro 29, 2021

O sol enche-lhe o rosto, percebemos pela queda da sombra nas suas costas e pelo franzir de olhos. Atrás, uma casa velha de alvenaria, daquelas que parecem velhas desde a construção, com uma chapa de zinco por telhado. Ele, pequeno e magro, de risca ao lado, posava de mãos nos bolsos, olhos cerrados e sorriso forçado. Os sapatos, iguais a todos os outros. A fotografia é a preto e branco, mas percebe-se que seriam castanhos e as meias, puxadas à canela, brancas. Também a camisa seria branca, com as golas a saírem como asas para fora do pullover de pescoço aberto. Os calções poderiam ser de qualquer cor, curtos e subidos à cintura. Parece estar calor, pela força do sol e pelos calções que usa. Parece estar frio, pela necessidade da camisola a cobrir a camisa. Nota-se a contrariedade no rosto, percebe-se que não queria posar para aquela foto, como nenhum miúdo gosta de ficar forçado à imobilidade. Falo de uma foto de Aciman, em Alexandria, no Egipto. Mas ali, naquela pequena imagem, eu vejo lá os meus pais, em Lisboa, em Almeida, em Luanda ou no Huambo.

Dia 28

Janeiro 28, 2021

Via-os pelas janelas, a minha e a deles, iluminados pelo que presumi ser a luz emanada pela televisão, uma luz que mudava constantemente de tom e intensidade. Estavam suficientemente perto para perceber que eram dois, mas suficientemente longe para não conseguir estar certo de que eram um homem e uma mulher. Assim assumi, todavia. Estavam os dois de pé. Um dia de semana, onze da noite, e numa janela de um bloco com dezenas de casas, dois vultos dançavam a meia luz. Fiquei com candura a observá-los. A certa altura, um dos vultos deu um passo atrás. Podia ser parte da coreografia improvisada, ou podia ser uma tentativa de se libertar. E aí vi: as mãos podiam não estar entrelaçadas de felicidade, mas apertadas por um dos vultos. E as cabeças podiam estar a mover-se atrás de gritos, e não a ser embaladas pela música. As cabeças juntaram-se, no que me pareceu um beijo. Mas podia ser só alguém a forçar outra pessoa. O filme estava perfeito enquanto os meus olhos só tinham candura; quando entrou o cinismo, estragou tudo. A culpa foi minha, porque, naquela pequenina janela, os dois vultos continuaram a ter a sua noite.

Dia 27

Janeiro 27, 2021

A conta a B a novidade bombástica. B não acha assim tão relevante, mas A fá-lo prometer que não irá contar a C e a D, por querer ser ele a fazê-lo. B promete. B almoça com C, e não ouve nada do que C vai dizendo entre garfadas. Na sua cabeça, corre só uma questão: conto ou não conto? B acha que C merece saber, até porque não é nada de tão importante assim, mas vai buscar todas as forças que tem para se conseguir manter em silêncio. B não conta a C. C acha o comportamento de B estranho e diz a D que ele não pareceu bem, que talvez se passe algo, para D tentar falar com ele, que é nestes momentos que os amigos devem aparecer. D vai falar com B, carregado de cuidados, para tentar perceber o que se passa com o amigo. B diz-lhe que está tudo bem. Explica-lhe que o comportamento estranho foi porque A lhe tinha contado aquela novidade, mas que lhe pedira para não contar a C. B contou então a D. Pediu segredo. D fala com C e diz-lhe para não se preocupar, porque a questão era a estrondosa - ou nem tanto - notícia de A. D pediu a C para não dizer a B que lhe tinha contado. No dia seguinte, A contou a C e a D, e ambos colocaram a sua melhor máscara de surpresa.

Dia 26

Janeiro 26, 2021

Mal chegou definiu o seu espaço: contando da porta da entrada, só se moveu um metro para dentro e um metro para fora. Não deu azo a grandes conversas, preferiu atacar de frente o trabalho que o levara ali. Teria a agenda coordenada ao milímetro, pensei. A nossa cabeça procura sempre justificar tudo, até a falta de simpatia. De lanterna na cabeça e busca-pólos na orelha, recusou com monossílabos todas as minhas ofertas de ajuda. Saberia que eram ofertas vãs, percebera mal me vira a minha inépcia para trabalhos manuais. Já ele, batalhava. Sem mexer os pés, suspirava alto, definia estratégias de combate sussurradas, suava em esgares de esforço. Ofereci-lhe um copo de água, aí podia ajudar, mas até isso recusou. Queria era que me deixasses trabalhar em paz, disse-me com os olhos. Eu obedeci. De repente, sem mudar o disfarce de cansaço, mandou-me ir confirmar que tudo estava a funcionar. Ao mesmo tempo, arrumava o material, adivinhando a resposta. E assim, tão mudo como chegou, seguiu para a próxima luta. Eu fiquei parado durante uns minutos, a invejar-lhe a magia.

Dia 25

Janeiro 25, 2021

Conheço pessoas que sofrem regularmente de dores de cabeça. Mais: de enxaquecas, daquelas em que a luz magoa, mesmo de olhos fechados, e em que a dor se puxa até ao estômago, culminando em  náuseas e vómitos. Felizmente, não sei o que isso é. Para mim, uma dor de cabeça é sentir o coração a bater junto aos olhos, como se o coração tivesse esquecido a gravidade e decidido bombear só para cima. Um incómodo que normalmente só me impede de ler ou trabalhar com a atenção devida, e pouco mais. Ainda assim, quem sofre de enxaquecas não consegue deixar de se rir de mim quando lhes digo que me dói a cabeça, sabendo que isso para eles não é mais do que normal. Ultimamente é assim que me tenho sentido, fruto de horas a olhar ecrãs diversos, de dias fechado em casa. A minha dor de cabeça, assumo, não é uma totalmente incapacitante: é quando uma fuga ao normal, uma falha na matriz. E basta.

Dia 24

Janeiro 24, 2021

Atendeu o telemóvel enquanto tentava pôr as luvas para se servir de um croissant. Mala entalada debaixo de um braço, telemóvel preso entre o ombro e o ouvido. Vi-a a parar e a pedir desculpa, com sotaque, porque se tinha esquecido completamente dele. Retomou o processo de colocar as luvas descartáveis, de plástico, parecidas às que existem nas bombas de gasolina, enquanto lhe pedia para não sair de onde estava, que em dez minutos estava lá. Vi nos olhos dela que os dez minutos que referiu eram só um número, como podiam ser cinco ou quinze, um número que não ia cumprir. Continuou as compras com calma, enquanto eu o imaginava sentado a uma mesa de café, bebida terminada há muito, mexendo no telemóvel até ficar quase sem bateria. Na minha cabeça não estava sozinho, estava ali sentado lado a lado com a angústia do esquecimento a que fora votado. 

Dia 23

Janeiro 23, 2021

Começara a chover há instantes. Pingas rápidas e leves escureciam diligentemente as ruas, e chamaram-me à janela. Vi-o logo, os meus olhos sempre atraídos pelo estranho. Também as pessoas na rua, amontoadas debaixo do toldo amarelo do café e da pala do quiosque, não conseguiam deixar de o olhar. Ninguém é imune ao ridículo, e ainda assim o ridículo não existe. Aprendi-o provavelmente com a liberdade de Mia Wallace a dançar descalça e com uma camisa de homem, um ridículo que se transformava em poder. Também ele dançava ali, à chuva, de olhos fechados e headphones. O rosto virado para cima, rodopiando com as mãos dentro dos bolsos a abrirem o casaco à chuva. Sorria e dançava. A felicidade parece-nos sempre ridícula. Não me recordo se estava molhado, talvez a chuva se encolha de medo quando lhe abrirmos o peito. Ou, por outras palavras: um homem é tão forte quanto menos se levar a sério.

Dia 22

Janeiro 22, 2021

Há poucas sensações mais confortáveis e prazerosas do que estar a ler um livro em silêncio, com a chuva a bater do lado de fora da janela. O problema é que se trata de um estado que se esvanece num instante, uma sensação que começa a transformar-se à medida que o mundo acontece à nossa volta. Pode ser a sirene ao longe, que nos leva até à janela, para perceber o quão perto de nós estão esses problemas que requerem a chegada da polícia, de uma ambulância, ou dos bombeiros - quando chegam em conjunto, é porque algo de muito errado se passa. Pode ser um vizinho que fecha a porta de casa sem cuidado, indiferente ao nosso momento. Pode ser o lápis que temos no colo a cair no chão, puxando-nos num esticão de volta à realidade. Ou pode ser só o assobio do vento que vem forte contra a janela mal vedada da sala, com tanto de mágico como de desafinado. Mas a verdade é que os momentos especiais não podem ser demasiado longos, senão caem sem estrondo na poça da normalidade, e só nos damos conta quando já estamos encharcados.

Dia 21

Janeiro 21, 2021

Ninguém sabe quando ou de onde apareceu, mas todos já o vimos pela rua. Dorme debaixo dos carros e é comum vê-lo à noite, ao sair do carro depois de estacionar, a olhar-nos imóvel. No escuro, é só olhos, enormes e amarelados. Se o tentarem afugentar, perceberão que não tem medo de ninguém; se o tentarem chamar, também não responde. Gosto de o imaginar como um espírito anárquico e rebelde, alguém que não se deixa domar. Tem o pêlo demasiado cuidado para um gato vadio, mas não tem identificação. Passeia pelo bairro às escondidas, disfarçado entre os arbustos e a roda dos carros, camaleão em corpo de mamífero. Ninguém o vê bem, ninguém sabe quem é, mas todos o respeitam. Lembra-me Rodriguez a vaguear pelas ruas de Detroit, aparecendo ninguém sabe de onde, vivendo ninguém sabe do quê, mas mantendo intacto o seu orgulho e misticismo. Naturalmente, só lhe falta a guitarra às costas.

Dia 20

Janeiro 20, 2021

As pessoas que mais invejo não são as mais bonitas, as mais felizes, ou as mais ricas: são as que sabem desenhar e pintar. Há dias passei em frente a um imponente monumento, e entre os turistas vi quatro jovens sentados no chão, pernas à chinês e blocos apoiados nas coxas: na direita um canhoto, na esquerda os restantes. Tinham lápis pequenos e gastos e as mãos sujas de carvão, pintavam também com elas. Fiz questão de os contornar, para matar a curiosidade. Os desenhos eram todos diferentes, mas em todos estava o mesmo monumento, imediatamente reconhecível, ainda que em perspectivas que eu nunca seria capaz de ver. Como é que eles sabem que riscos fazer para retirar aquele monumento de uma folha de papel branco? E que cores usar para os trazer à vida? Às vezes acho que escrevo porque não sei pintar, porque não sei sequer fazer uma linha recta numa folha de papel. Nem com uma régua.

Dia 19

Janeiro 19, 2021

Duas crianças colocam, com receio, os pés na água salgada. Estão de mãos dadas na água que sobra da rebentação. As duas, de fatos de banho claros, têm um cuidado anormal para a idade, instigadas pelo medo das ondas que lhes rebentam dois metros à frente. Ali, estão seguras. A do lado esquerdo é mais alta, e a atenção com que olha a mais pequena diz-me que são irmãs. A água, que dá pelos joelhos da mais pequena, é um espelho, um espelho que vai refletindo para todos os lados, sem critério. Também o cabelo desta, apanhado dos dois lados, em cima das orelhas, brilha. É mais escuro que o da irmã. Não lhes vejo o rosto, mas imagino-a assustada e excitada em doses iguais. A irmã deve estar com um sorriso doce a esconder a preocupação. Não estava lá, não vi aquele momento. Mas estou a vê-lo agora pelos olhos e dedos de Sorolla, e até sinto o cheiro a mar.

Dia 18

Janeiro 18, 2021

Um livro é um bem essencial. Há meses comprei um livro num alfarrabista que vinha com um postal dentro. Imediatamente imaginei que alguém o começou a ler, usando o postal como marcador, e foi-se desinteressando da escrita e esquecendo do postal-marcador ao mesmo tempo. O postal reproduz um quadro de Fantin-Latour e deseja um beijo a alguém. Por muito que tente, não consigo decifrar muito mais. Está datado e terá atravessado fronteiras europeias. Sinto-me a entrar dentro de outra vida, enquanto olho um postal que não era suposto ter-me chegado às mãos, a espreitar por uma fechadura sem nada do outro lado. Dito isto, encontrei-o no sítio certo, num livro onde entrei também dentro de outras vidas. Devia deitá-lo fora? Não me sinto capaz, ainda não, seria uma falta de respeito por quem o escreveu. Assim, mantenho-o na secretária até decidir o seu fim. Enquanto escrevo, o quadro do postal vai-me olhando, sem que quem o enviou alguma vez lhe imaginasse tal fim.

Dia 17

Janeiro 17, 2021

A mulher debruçava-se sobre o estendal, colocando molas com uma mão e pegando na peça seguinte com a outra. Era um trabalho bem coreografado e ela nunca falhava o ritmo. Estava a trabalhar contra o relógio do mundo, sabia que a qualquer momento o sol podia enublar-se. Só lhe batia no estendal durante um período limitado de tempo, um sol diagonal que lhe ia valendo para o serviço, e ela aproveitava-o ferozmente. Ficávamos intrigados com a quantidade de roupa que estendia, com o número de vezes que aparecia ali, com o peito apoiado no parapeito e caída sobre o estendal. Nunca lhe vimos as pernas, para nós era um quadro emoldurado pela janela que víamos da sala. Ela sempre ali, a estender roupa que parecia multiplicar-se diariamente, e nós a vê-la do sofá, discutindo a força dos hábitos.

Dia 16

Janeiro 16, 2021

O silêncio é subvalorizado. A primeira coisa que fiz hoje foi abrir a janela para o escutar. Escutar o silêncio dos carros parados, o silêncio das pessoas em casa, o silêncio até dos pássaros que migraram, numa fuga repetida até à exaustão. Escutar o silêncio da cidade, tão raro quanto precioso. O que ouvi, todavia, foi diferente. Dois miúdos gritavam de uma bicicleta para a outra, enquanto ultrapassavam a velhota que tinha ido ao pão. Uma carrinha descarregava compras feitas num hipermercado para entrega em casa. Ouvia-se o som da água a bater na chapa, o porteiro que aproveitava para lavar o carro enquanto lavava a entrada do prédio à pressão. Ouvia-se um cão a rosnar a um galho, no centro da praceta, um galho que depois se deixava apanhar para o cão levar ao dono. Ouvia-se tudo, ouvia-se a cidade toda ali. Tudo menos o silêncio que queria ouvir.

Dia 15

Janeiro 15, 2021

Vimo-la agachada no meio do passeio como se estivesse a apanhar algo do chão, algo que não conseguíamos ver. Tinha ar de turista asiática, denunciada pela correia que lhe prendia a máquina fotográfica ao pescoço e pelos olhos rasgados. Estava absolutamente imóvel, imune a todas as pessoas que a contornavam e ficavam a olhar sem abrandar o passo. Foi só quando estávamos já demasiado perto que o vimos, um pequeno pardal caído. Ela tirava fotos sem parar, só mexendo as mãos e os olhos. Com mais ou menos zoom, na horizontal ou na vertical, ela parecia destinada a fotografar todos os ângulos do pássaro que ali tombara e ficara, hirto como um bom modelo. Continuámos também no nosso trajeto, sem pausas. Fui o resto do caminho a pensar quem estava errado: ela, sem pudor com aquela morte que achava tão interessante; ou nós, do alto da nossa insensibilidade, achando aquela morte tão normal como indigna de nota.

Dia 14

Janeiro 14, 2021

Entrou calmamente, desenrolando o cachecol que trazia ao pescoço. Pediu um café ao balcão. Todos a olharam por um instante, antes de desviarem o olhar à pressa. Meio vergonha, meio pena, meio condenação. Ela parecia não ter qualquer preocupação, mas todos se fixaram no facto de não ter cabelo. Devia estar na casa dos trinta, e a confiança que transmitia dava a sensação que aquele cabelo - a falta dele, no caso - não passava de opção estética. No entanto, em todas as mesas se sabia que não o era, e em todas caiu uma pena condescendente que a sua pose refutava. Aquela opção por não disfarçar era isso mesmo, uma maneira silenciosa de mostrar ao que vinha. Era certamente passageiro, e ela sabia-o. Se os outros achavam o mesmo ou não, a ela era-lhe irrelevante. O ambiente ficou pesado na pastelaria. Ela era a pessoa mais leve que ali estava.

Dia 13

Janeiro 13, 2021

No hotel pegava num copo de café para o caminho. Era grátis e mau, mas permitia ter as mãos quentes. As luvas só não chegavam. O passeio era feito olhando para cima e para baixo, numa alternância que tinha de ser rápida e eficaz. Era uma cidade nova, com prédios enormes, e ele não queria perder isso. Por outro lado, se não olhasse para baixo arriscava-se a escorregar na neve, ou sobretudo na camada de gelo que se formara com o recongelar da neve ligeiramente derretida pelo sol tímido. Era uma ginástica que todos à sua volta pareciam fazer sem problemas, mas que para ele continuava a exigir esforço. Desistira de tirar fotografias para lhe mostrar quando voltasse a estar com ela, porque isso exigia tirar a luva da mão direita. De trezentos em trezentos metros, as pernas obrigavam-no a parar: as calças enrijeciam geladas, e ao andar queimavam-lhe as pernas ao toque. As calças duras e congeladas, as pernas a endurecer e a congelar. Não havia hipóteses, tinha de entrar num qualquer café de esquina até que a sua temperatura regressasse aos mínimos aceitáveis. Enquanto se abastecia de novo café ou chá, pensava no quanto sofrem os pássaros ali, expostos aos elementos.

Dia 12

Janeiro 12, 2021

A minha rua, pela proximidade do hipermercado, torna-se por vezes um cemitério de carrinhos de plástico. Aconteceu agora, com as compras para as festas: as pessoas estacionam as suas viaturas na rua e depois trazem as compras num carrinho pelo passeio. Depositadas as compras no carro, os carrinhos vermelhos são largados em qualquer lado, sem critério nem cuidado. Mas nem tudo são coisas más: as pessoas do bairro começam a apropriar-se dos carrinhos para o seu dia-a-dia. A velhota que coloca o saco do talho no carrinho e o leva até à porta do prédio; os pais que ali sentam os filhos pequenos para lhes proporcionar uma viagem radical pelo trepidar da calçada portuguesa; até os miúdos que se juntam no parque infantil a beber litrosas e fumar, desrespeitando o recolher obrigatório, e se colocam dentro dos carros para chocarem entre si. Esta última não é boa, não, mas carrinhos de choque de hipermercado? Só na minha rua, desconfio.

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